sexta-feira, 24 de julho de 2015

O INOCENTE - PARTE III
O encontro - Olivié era um engenheiro naval. Bem apessoado, educadíssimo, trabalhava no Estaleiro Mauá no Rio de Janeiro. Filho de família tradicional carioca, ele conhecera Lina, sua futura esposa, no Jóquei Clube. Ela era neta de um ex-presidente da República. A paixão dos dois passou a ser comentada em todas as rodas sociais. Os familiares da sua futura esposa despendiam todos os esforços para o casamento se realizar o mais breve possível. A despeito do seu amor por Lina, Olivié era um grande farrista, tinha uma dezena de colegas no estaleiro, turma da faculdade, amigos de longas datas. O avô de Lina, vendo o tempo passar, chamou Olivié e deu-lhe um ultimato: casa, ou desocupa a moita. Olivié ponderou que primeiro teria de firmar-se financeiramente, comprar um apartamento, mobiliar, para dar todo o conforto que sua futura e amada esposa merecia. Ainda recém-formado, ganhava pouco. Obteve, porém, a seguinte resposta: este problema será resolvido imediatamente. Você deixará seu emprego e cuidará de uma mina de diamantes da família, visto que meu filho, seu futuro sogro, está muito doente, já não suporta viagens constantes a Minas Gerais; jovem, bem disposto, com saúde, você poderá casar e morar perto da mina, localizada a alguns quilômetros da cidade de Diamantina, em Minas Gerais.
Olivié sentiu um aperto no coração. Aquela proposta era como um ultimato em sua vida. Já estava na hora de resolver os próprios rumos, decidir sua vida e, obviamente, o da futura esposa também. De pronto, disse ao avô de Lina: aceito a oferta. Decidam a data do casamento. Feito o pedido oficialmente como manda o figurino, marcaram a data e os preparativos se iniciaram.
Tiveram que mudar os planos para a lua de mel, inicialmente programada para Paris. Contentaram-se em escolher uma pequena cidade histórica de Minas Gerais, Mariana. Esta mudança de planos se deveu ao agravamento da saúde do pai de Lina, que já não se achava apto para dirigir os trabalhos da mina, então em mãos de terceiros. O avô de Lina havia apressado o casamento porque precisava urgentemente de um substituto de confiança na gerência da mina. Ninguém melhor que uma pessoa da família, no caso, Olivié, que em breve se casaria com Lina.
Os amigos do noivo, assim que souberam da noticia, exigiram uma festa de despedida de solteiro. Olivié pensou e resolveu com os amigos que não daria festa de despedida de solteiro, pois logo depois da lua de mel partiria para Minas Gerais. Assim sendo, faria uma festa de despedida por conta da sua mudança de cidade, de estado. Os amigos aceitaram os argumentos: duas festas, quase simultâneas, seriam muito dispendiosas para o noivo.
Na data marcada, os nubentes a postos no altar para uma cerimônia digna de príncipe, familiares e amigos esbaldaram-se no champanhe francês e uísque escocês. Findos os festejos, o novo casal tomou o trem para Belo Horizonte. Lá chegando, pegaram a Maria Fumaça em direção a Mariana. Um longo dia de viagem. Chegaram à noitinha, foram para o hotel para a ceia nupcial.
No outro dia bem cedinho, felizes da vida, foram conhecer a cidade. Visitaram igrejas, museus, lojas, monumentos. Quando iam almoçar em um restaurante de comida típica mineira, passeando pelas ladeiras de Mariana, Olivié escutou alguém chamando seu nome. Parou, achou estranho, não conhecia ninguém naquela cidade. Quando olhou para trás, viu um amigo de longa data, reconheceu-o e foi aquela festa. Apresentou-o à sua esposa, desculpou-se por não o ter convidado para o casamento, explicando-lhe que perdera seu endereço e perguntando-lhe o que fazia em Mariana. Sou delegado recém-empossado, estou residindo aqui. Marcaram um almoço para o dia seguinte na casa do amigo delegado.
Olivié trouxera para sua lua de mel algumas garrafas de vinho do Porto, presente do sogro. Como a ocasião permitia, levou duas garrafas da excelente safra para a ceia. O amigo delegado havia se casado há pouco antes de se estabelecer na cidade de Mariana.
Terminado o almoço, foram para a varanda degustar um suave conhaque com café. O amigo perguntou a Olivié: - Você ainda tem aquela mania de colecionar antiguidades? Mobílias, manuscritos, quadros? - Sim, tenho e já nem sei o que fazer com tanta velharia acumulada. Quando mudar para Diamantina, provavelmente, encherei um vagão do trem de ferro. Mas por que me pergunta isso? - Há alguns meses prendi um pedreiro limpador de chaminé, pessoa boa, trabalhadora que, por infelicidade, amasiou-se com uma prostituta e acabou esfaqueando um concorrente amoroso. Ele me disse que havia encontrado um tesouro - dezenas de patacas de ouro - que já vendeu e gastou todo o dinheiro, mas sobraram algumas cartas antigas, já amareladas, salvo engano, do século XVIII, algo por volta de 1750, coincidindo com o movimento da Conjuração Mineira. Olivié sorriu e disse que gostaria de dar uma olhada nas cartas; se houver interesse, posso comprá-las. Combinou então que no dia seguinte faria uma visita à delegacia onde o pedreiro estava preso.
No dia seguinte, foi à delegacia, procurou pelo amigo a fim de olhar as cartas do tal preso. O delegado o trouxe até Olivié, que lhe pediu para mostrar-lhe as cartas. O preso mandou um recado à sua esposa, que em alguns instantes chegou com as cartas e o pequeno baú. Olivié olhou, deu uma lida superficial e perguntou ao preso: quanto você quer por estes documentos? Sem ter a menor ideia do que se tratava, ele pediu apenas que pagasse um bom advogado para tirá-lo da cadeia. Negócio feito, Olivié combinou com o amigo delegado, para que ele contratasse o melhor advogado da cidade de Mariana e lhe enviasse a conta depois. Voltou então ao hotel para encontrar com a esposa, aproveitar a tarde e se despedirem da cidade com um espetáculo marcante, um concerto no órgão centenário de Mariana. O acontecimento belíssimo marcou a última noite do casal na cidade. Que, ao raiar do dia, embarcou na Maria Fumaça em direção a Belo Horizonte, onde baldeariam com destino ao Rio de Janeiro. (Continua na próxima edição)

O Meteco

Voz de Diamantina - Edição 720 - 30/05/2015



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